quinta-feira, 24 de março de 2016

Há sempre uma carroça cheia de arrependimentos e o asno sou eu,
Há os momentos que não fiz o que hoje teria feito espalhados pela minha rua,
Há a morte amanhã sepultando os planos passados, presentes, futuros.
Há a volta soturna e noturna do campeão de planos adiados,
Há o coração, tristíssimo relógio de tique taques também tristíssimos,
Há o infinito sentimento de ter tido e perdido algo também infinito.
Há a novidade perfumada e o medo da novidade perfumada,
Há o horror de conhecer,
Há o que não foi, o que não teve, o que poderia ter sido.
Há tanto nada,
Há tanto não,
Há tanto tempo.
Há sempre um carro fúnebre que passa pela minha rua, recolhendo todos os sonhos embrulhados em sacolas de lixo.
Há sempre o que eu gostaria que houvesse,
Mas não há.

(Adrian Clarindo)

quinta-feira, 12 de março de 2015

Discurso - Formatura - Letras

Boa noite, obrigado e parabéns turma de graduados SECAL de 2014.

       Lá na vila as pessoas mais velhas não têm tanta escolaridade quanto vocês. A dona Maria da minha rua, por exemplo, fez até a quarta série. No entanto, a dona Maria recebe diariamente pessoas que querem aprender a costurar. Ela é uma ótima costureira. Dona Maria sabe falar a linguagem das agulhas, a linguagem dos tecidos, e sabe como passar esta informação a outras pessoas. Dona Maria sabe falar com as pessoas de um jeito bacana, e nessas conversas corações são costurados e sonhos são bordados. Dona Maria é a história de uma pessoa que estudou pouco e sabe muito, como tantas outras histórias com este mesmo tema que ouvimos por aí. Estas histórias, porém, acabam virando um lugar comum, um clichê, e por isso, nós não damos os devidos ouvidos a elas. Quantas Donas Marias não moram na tua rua? Na tua casa? Não são tua mãe, teu pai, teus avós ou algum vizinho?

      A linguagem que nós estudamos tanto durante os anos de graduação das Ciências Humanas se estende para um entendimento mais amplo. E é disso que eu gostaria de falar para vocês hoje nesta bela e calma noite. Vocês vejam, nós somos o resultado eterno de uma conta feita para sempre. E nesta conta há subtrações, divisões, somas, multiplicações de todos os elementos que nós experienciamos na vida, de todas as cenas que vivemos, dos dias frios, do filme ruim, do amor encontrado, da felicidade espontânea, de alguma derrota ou frustração nossa. E foram momentos assim que adicionamos ao resultado múltiplo e movimentado que somos quando escolhemos entrar na faculdade. E os dias de discussão, os dias de sofrimento, do trabalho sendo feito na última hora, de estudo para as avaliações vão ficando amenos e nostálgicos na ilha de edição que a nossa memória é. É como se hoje assistíssemos ao nosso próprio filme e toda a dor e alegria passadas são de se chorar, rir, de se sentir novamente. É a tal saudade que nós falantes desta língua portuguesa sabemos bem o que é, por termos uma palavra que aponta para esta abstração sentimental.

            Todos os estudos nossos durante estes longos anos que hoje parecem tão curtos foram para um a um desvendarmos e refletirmos sobre a nossa visão automática para as coisas, foram para nos colocar como participante ativo de todo e cada momento que estejamos presentes, como este que está acontecendo aqui e agora. Tudo que estudamos contribui para o desvendamento do que é a linguagem, a comunicação, a mensagem pensada e passada. É aí que descobriremos com mais razão a dona Maria das nossas ruas. É aí que perceberemos que a linguagem se desdobra para ser mais do que a nossa visão automática via. É aí que vemos que há pessoas que falam a língua da cores e pintam quadros ótimos, há outras que são fluentes em fazer um café da tarde ótimo, outras que falam o idioma da limpeza das casas. Tudo é uma linguagem, um código que vamos capturando, e aumentar a nossa percepção dessa linguagem, desse código, que está a todo o momento com nós, é o que aprendemos na graduação e que continuamos aprendendo para sempre depois dela, acreditem em mim.

Quando se damos conta disso, olhamos com outros olhos aquele tio do campo que dificilmente conversamos por causa da nossa rotina tão corrida e tecnológica. São tantas as linguagens que ele fala e que nós não,  que nos enchemos de perguntas. E de fato este nosso tio distante também tem muitas perguntas a nós, afinal nós e todas as nossas circunstâncias somos plateias uns dos outros. E está aí outra coisa que está na nossa frente e por isso mesmo é tão fácil de esquecer. A importância de se ter uma plateia, de se dar ouvidos, de se olhar para as pessoas, e de ser visto. É isso que alimenta a maquinaria das relações pessoais. Alguns anos depois da minha própria graduação, eu chego aqui para falar para vocês e é porque eu os percebo que eu falo com este tom, com estas palavras, e pausas. Fossem vocês todos crianças e eu teria trazido desenhos e frases não tão enfadonhas como estas que vos falo. Eu, então, por mais que fale primeiro, sou uma resposta a vocês. Se este lugar estivesse vazio, eu não falaria nenhuma palavra. Nós necessitamos sempre de um outro para simplesmente sermos. Se pergunte: por que o adolescente grita bravo com a mãe e bate a porta do quarto? Pela obviedade monstruosa de existir uma mãe, uma casa, com um quarto e uma porta. A garota não diz “não” ao esperançoso e romântico garoto se não houver um esperançoso e romântico garoto. Estamos, assim, numa eterna construção dentro da distância entre nós e os outros. Somos nós também os outros para outros. Eu também construo aquele que não me é. Neste exato momento aqui nós nos construímos, todos, todos os resultados e circunstâncias que somos estão aqui espalhados por nós...

Talvez este meu discurso não esteja soando tão glorioso, mas é do resultado construído até agora por estes graduados que eu quero chamar à atenção de vocês, este resultado da conta eterna que são eles mesmos. E é disso que estamos falando aqui, é de cada um desses alunos que se construíram para ensinar, para se tornar um professor. O professor que cada vez mais se esforça para entender as linguagens diversas de cada aluno, os talentos escondidos, as situações complexas das salas de aula e fora delas. E a visão do professor  mesmo muitas vezes se automatiza, e o professor acaba não sabendo bem o tamanho que tem, não dá ouvidos a ele mesmo, não nota a importância deste outro que ele é aos alunos e à sociedade, desta plateia que ele próprio se tornou.

Pense nas personalidades históricas e famosas, pense em você mesmo, e se lembre do  professor que pegou na mão tua e deles e fez todos desenharem as vogais. E é aí que tudo começa, pois ensinar alguém a falar, ensinar alguém a possuir uma linguagem é dar a este alguém um contorno no mundo, uma fala, um gesto, uma significação. A linguagem nos amplia, nos estica. Mesmo eu não estando com alguém, eu posso me esticar através de um papel qualquer, numa mensagem qualquer, posso escrever e alcançar com a ponta das palavras o que eu quero alcançar: Como sem palavras sairia um "Eu te amo" num papel velho? Como se enviaria a carta de amor, de despedida, de aviso da morte? Até um tchau é linguagem! Afinal, o que é aquele tchauzinho? Aquele abanar da mão com os dedos todos erguidos? O que é senão uma tentativa última de mesmo distante ainda ter alguma coisa que una duas pessoas, que comunique, que passe uma mensagem? E não é verdade que nos sentimos até tristes ou ofendidos quando não recebemos um tchau decente de alguém que gostamos? Perguntem aos filhos que perderam os pais, os pais que perderam os filhos num de repente, e vocês verão.

            Ensinar alguém a se pronunciar perante o mundo é uma coisa importante, talvez a mais importante de todas as coisas… O professor auxilia o sem voz a ter voz, o sem letra a ter letra, o sem gesto a ter gesto, o sem significação a significar: e aí aquele aluninho vai poder convidar o amiguinho para brincar, vai poder pedir o que quiser: “com mais açúcar, mamãe” talvez diga. O alunão vai poder explicar melhor aquele sentimento tão difícil de explicar, vai ser capaz de reconhecer os números no telefone e discar apressado e gritar as saudades para alguém de quem tenha saudades. A palavra elimina as distâncias, ou ao menos tenta com força fazer isso. E o professor das línguas outras? Tão esquecido… Mas de igual importância. Ensinar alguém a falar uma outra língua é abrir uma porta para um outro mundo de possibilidades, é rir da piada até ontem inalcançável, é conhecer mais palavras e poder usá-las, e é, sobretudo, poder conhecer mais pessoas. E mais sobretudo ainda, ensinar uma língua outra a alguém é transformar algo que era uma fronteira em uma bela e firme ponte.

    Se de fato no início de tudo era o verbo, e o verbo se tornou carne, se de fato Deus disse “Faça-se a luz”, em que língua Deus disse isso?  Havia então uma linguagem antes de tudo? Se um ponto no nada imenso explodiu e criou todas as coisas, onde estava o código matemático que fez esse ponto explodir? Ensinar alguém uma linguagem é colocar este alguém em contato com a possibilidade deste cálculo, com a possibilidade de sonhar sobre o passado e o futuro, com a possibilidade de falar com Deus, com a possibilidade de aprender com as coisas da vida e guardar as memórias em palavras e revivê-las todas ao contá-las a um amigo. Ensinar alguém alguma coisa é se espalhar para ser este alguém, é ser um pouquinho todos os alunos. Por isso eu repito, o professor não sabe bem o tamanho que tem e há razão para isso, pois o professor é do tamanho da capacidade humana de se maravilhar com as coisas.

       É  muito fácil pensar que as coisas estão todas na “minha”  frente, “me atrapalhando”. Enquanto recém-professores vocês notarão que a nossa fala automática é a de vítima. Todos somos as vítimas, os oprimidos, nunca os opressores. É como aquela velha piada: “Se o aluno passa, ele diz:  eu passei. Se o aluno reprova,  o aluno diz: o professor me reprovou”. Sei que é uma tarefa difícil se perceber também como parte ativa e constituinte de algo não tão maravilhoso. De se perceber às vezes injusto, de notar a si mesmo como construtor da realidade com a toda a culpa do mundo. Se estou na fila gigantesca do banco, eu raramente me dou conta que não simplesmente estou na fila do banco, mas eu também sou a própria fila. Eu também sou o próprio congestionamento, eu também sou o grupo eterno de pessoas supérfluas que só atrapalham uma tarefa cotidiana qualquer. Isso vem bem a se falar para os que vivem com outras pessoas, para os que convivem. Há coisas que o seu amigo faz que você se irrita, que você detesta, mas nunca fala, não há tanto motivo assim... Decerto há coisas que você também faz que também irritam o teu amigo, mas que ele não se pronuncia sobre... Se perceber como mais um neste planeta cheio de pessoas, é ao mesmo tempo ficar menos arrogante e mais ciente do valor que temos uns para os outros. Cuidem-se, professores, cuidem-se. Não deixem a Dona Maria da tua rua morrer num acidente na esquina de vocês sem vocês darem o devido valor às linguagens que ela fala e que ela pode ensinar, não deixem... porque a esquina cheia de acidentes fatais está sempre à espreita. Nem se deixem pormenorizar neste mundo de gigantes. A Dona Maria, afinal, pode ser nós mesmos, cheios de esperança, cheios de coisas que aprendemos diariamente. E isso, podemos dizer, acontece com todo mundo. Mas vocês todos aqui são diferentes, vocês têm aquela vontade vinda não sei de onde de passar aos outros o que vocês aprenderam, vocês quiseram fazer disso a própria profissão. Isso é perceber que somos o apresentador e a plateia ao mesmo tempo. Isso é notar que somos parte importante na construção mútua dos que estão próximos a nós. Isso é compreender que por mais que em algum momento da vida nos encontremos completamente sozinhos em algum canto do universo, podemos amenizar este sentimento através de alguma linguagem que é a ligação entre nós e os outros, entre nós e Deus, entre nós e o próprio universo. Isso é ser professor. Isso é ser a Dona Maria que mora na rua da vida de cada um de nós.

Eu desejo dias sinceramente bonitos a todos vocês.

Obrigado.

(Discurso proferido por Adrian Lincoln F. Clarindo)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Natal de todos


Quando menino, o menino já ia se aprontando, pensando, fazendo os cálculos toda vez que a primavera ia morrendo e o verão vinha para ser a velha novidade. Ah, era a hora da alegria, de quando a gente se esquece dos princípios que nos prendem, de quando os inimigos se sorriem, e a ideologia adolescente pouco importa. Viria o irmão se encontrar com a irmã com quem não trocava palavra, e aí trocariam presentes e abraços e conversas. Viria o tio chato com as velhas piadas de sempre e as camisetas inusáveis que ele sempre dava aos sobrinhos. O pai já teria preparado toda a comida, enquanto a mãe os detalhes da mesa, e estavam os dois mais que belos na hora da chegada dos convidados. Celebrariam todos o dia com o quase conhecido da esquina, não importa, não haveria situação, palavra, silêncio constrangedor, hoje é de todos assim como a vida, presente primeiro.
“Ah, no natal ninguém morre!” calculava sempre o menino com o sorriso no rosto. E no dia, na hora, no momento mesmo, vestiria aquela camiseta de um cinza claro que só muito raro usava para passear quando em lugares demais de chiques, para não ser tão humilhado pelas vitrines, e aí rasgaria com dó o papel de presente, mas com força sem tanto ali ligar. E deixaria todos os presentes enfileirados em cima da cama de lençol cor das nuvens no quarto todo azul, como se quase vivesse no céu. E entre uma brincadeira ou outra dos amigos do pai com ele, receberia umas prezas em dinheiro. Juntaria com o que recebeu dos avós. Ah, guardaria tudo! Talvez para a hora da cantina na escola no ano que vem, quando as férias acabarem. Chegar lá e dizer “quero dois bolinhos”. Ah, o natal, é mesmo tocar o céu.
Viriam uns amiguinhos, aqueles já de casa, e comparariam os presentes uns com outros. Os pais ainda presenteariam os amiguinhos, o menino sabe, ele quem ajudou o pai a escolher os presentes dias antes, quando a primavera falecia sabendo que nasceria de volta. As árvores piscavam para o menino que sentia o calor bom de toda a cidade agasalhada para aquela noite que talvez pudesse, como qualquer outra talvez possa, resultar em ser eterna. “Ah, é natal e todo o amor foi comprado!” gritavam os pensamentos do menino. E habitaria ali na casa toda emoção boa do mundo, pois mesmo muito antes da coisa material dos presentes, celebrariam o que os unia, o que alguns acham ser algo com inicial maiúscula como o Acaso, Acidente ou Tempo, e lá se saberia que era Deus. E ficariam mais contentes mesmo com o presente da presença das pessoas que vieram. Todos lá tentando ao máximo se inundar uns dos outros numa humildade altiva de serem necessários e necessitarem, de serem plateia e ato principal ao mesmo tempo e para sempre.
Quando menino, com a primavera já enterrada, e o verão a andar por tudo que há, o menino viu o dia tão calculado e pensado chegar. E da rua que era a casa própria, debaixo do teto cuja lâmpada é a lua, ele, através de várias janelas, viu que aconteceu tudo do jeito exato que ele esperava.


Publicado no jornal escrito Diário Correio do Paraná. Dezembro de 2011.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Se você não me olha, como eu posso me ver?


A solidão será o jardim de onde floresce tua vontade de ir atrás de algo que você nem sabe o que é. Ela se agigantará em teu quarto e te humilhará encurralando-te em teus pequenos e imbecis princípios. A solidão erguerá a verdade esmagada pelas aparências e te fará um idiota. É ela, é ela que te empurra de teu quarto quando a noite cai e te faz conversar com o desconhecido que te odeia. É ela que te fará paparicar o detestável, que te fará beijar a vagabunda, que te fará abraçar quantos e quantos demônios. 

A solidão vai te agulhar o peito quando você vir por aí as propagandas dos felizes, a fila dos elegantes, o circo dos bonitos. Ela te colocará na festa em que te sentirá um estrangeiro, que sentirá a enorme falta da segurança da tua cama, do programa ruim na TV e da fortaleza que é a companhia de tua família. A solidão te assusta a todo instante com o horror que ela é. E por dias não haverá distração que te distraia, ela virá fulminante ao mesmo tempo em que lenta, te esmagando os sentimentos, se agarrando em teu peito, e terá que sair de casa, ligar para o amigo, encontrar um qualquer para simplesmente conseguir o prazer de ser, pois só existe “eu” se existe “você”. A solidão é aquela que te colocará o “sim” na boca mesmo antes da pergunta, é aquela que te cegará as escolhas, e te fará amar mais o amor do que o amado, mais a ideia de estar apaixonado do que propriamente a pessoa escolhida. Sim, não há ninguém mais romântico do que aquele que não tem com quem ser romântico. Este que namorou a solidão, prima-irmã da tristeza, e conheceu o abismo entre os seres, é quem sabe que o mais alto dos gritos não chegará a ser grito se não houver quem o ouça. Dirão que o próprio gritador pode ouvir, e é aí o lugar em que horror habita. Tira-te o outro, e a solidão te matará, pois é a promessa da presença que mantém o náufrago vivo.
A solidão, que me faz te chamar de amigo, amigo, é aquela que te fará mendigar atenções, atravessar as respostas, e procurar o outro, que o filósofo disse ser nosso inferno, mas esqueceu de dizer que é também, e antes de tudo, o nosso paraíso. Bastássemos nós a nós mesmos, e não mais criaríamos nada, não mais conversaríamos, não mais pintaríamos quadro algum, não mais faríamos nenhum tipo de arte, nem perderíamos tempo fazendo qualquer coisa buscando alguma comunicação como, por exemplo, escrever textos sobre ela própria, a solidão.




Adrian, ilustrado por Melu Nunes, para a revista Ponto E Vírgula.



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

E no fim não haverá fim

Quando descolar-se o sol do céu e choverem as estrelas da noite para longe de tudo que é esperança, estarei ainda na carona de Tua vigília, oh, Alma Santa!

Poderá mesmo a empresa do horror mutilar-me os sonhos e poderá o lado cruel de cada indivíduo sufocar-me de abraços frios, que não me tornarei um servo da estaca da ruindade e da mágoa venenosa que lentamente estraga os filhos da terra.

E ainda que esteja no deserto da miséria, jamais tomarei da poção corrupta que caminha dentro da pátera, pois transborda do suco da discórdia e dos rios odiosos que inundam os espíritos humanos.

Posso mesmo chorar as culpas humanas, mas não as condenarei, ainda que a tristeza aguda me agulhe o peito.

Pois sei que meu ato é Tua vontade e minha palavra é Tua voz, e que toda gota do meu rosto é para o cálice de Teu amor.


(Adrian Lincoln)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

À Maria - A descrição.

“Está caído no alto, contrariando as leis das coisas que caem, e se estende sobre nós seja dia seja noite nos doando de si mesmo belezas infinitas.

Às vezes chora em água com a gente, ou se fecha pálido porque outro entre nós sente-se fechado.

E acompanha todos os seres e todas as coisas e carrega para eles todas as pesadas luzes do universo. É lá ainda que habitam os que nos morreram, as mães mortas, os filhos não nascidos.

E é para lá que olham os vivos quando desesperados ou mesmo esperançosos, para lá que abrem os braços numa tentativa de abraçar e ter para si toda paz que ele promete ser.”

Assim, minha mãe, defini o céu, mas não consegui te mostrar.


Adrian L.

domingo, 25 de outubro de 2009

Quando

Quando eu era criança, Deus era melhor
Alongava a novidade
E nenhuma coisa tinha um fim
Nem o mundo nem nenhuma vida

Deus era mais eterno
E o medo que eu tinha era do escuro
E não do homem

O noticiário era mais tranqüilo
E as tragédias de verdade nunca aconteciam
E não era tão vergonhoso ir até a casa do vizinho ver televisão
Ou emprestar copos de comida

Eu tinha os corações que desejava
Justamente por não desejar coração nenhum
E eu não era tão ridículo
Nem tão feio como me dizem por aí
E nem sempre era o último a ser escolhido
Nas brincadeiras de escolha

As pequenas tristezas aconteciam
E eram porque não se tinha o brinquedo
Não porque não se tinha uma pessoa

Eu não era tão corcunda
E nem me importava se tinha só um par de sapatos
Porque eu não olhava tanto para eles
Como faço hoje quando caminho

Deus amenizava a minha estupidez
Porque colocava graça na bobeira burra
De toda pequena pessoa quando boba

As coisas eram mais iguais
E mesmo o garoto monstro da quinta casa era feliz
Mesmo o amor paraplégico ainda era amor
Mesmo a luz de velas ainda era luz
Mesmo todos eram o coração do mundo
E não só poucos alguns

Quando eu era criança, Deus era melhor
Porque talvez também fosse Ele mais criança.


Adrian L.)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Do mar

Ano passado, eu fui pela primeira vez à praia, e foi quando entendi por que Deus separou o mar do céu:

O mar é grande
A água gigante
O mar nunca pára
Não dorme
Fica lá, acordado
Inundado de movimento
Movimenta mas não vai embora
E é bom por isso
Fica ali
Sempre sendo
Para nós ou para ninguém.


Adrian L.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Exista,

Na nossa cidade não deviam existir tardes tão sozinhas
Nem esquinas cheias de acidentes fatais

Na nossa cidade não devia existir a hora triste
Depois de uma derrota nossa para o mundo

Na nossa cidade não deviam existir amores negados
Nem ruas desertas com casas mudas
Nem aquele tempo que se leva para dormir
Que enche o quarto de dúvidas
E nos dá aquela pequena vontade de morrer

No nosso bairro não devia existir a rua de cima
Que sempre ganha os campeonatos de jogo
Nem o céu com tantas nuvens cortando
A nossa conversa com o sol

No nosso bairro não devia existir a gargalhada alta
Das prostitutas que riem de mim
Nem tanta cor na paisagem
Que a gente vê mas não tem

Na nossa rua não devia existir o vizinho tão melhor
Nem os dias de mais frio do que roupas
Nem mais fome que comida

Na nossa rua não deviam existir os amigos que não moram mais
Nem este festival de mães mortas
Que abaixaram para sempre a cabeça dos filhos

Na nossa rua não devia existir caminhar na calçada
Com esperança de algo que não se sabe o quê

Na nossa rua não devia existir a saudade
Da infância que foi há anos ou ontem
Nem muros tão altos com cachorros lá dentro
Que se a bola cai não tem como pegar

Na nossa rua não devia existir a doença de lembrar
Nem o telefone público
Que transforma o abraço em palavra...

Na nossa rua não deviam existir tantas palavras
Fazendo procissão por tudo que há
Nem a gente brincando de tristeza
Tarde da noite quando já é a hora do soninho
E não de existir.

(Adrian L.)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Das ausências - Adrian Lincoln


Sempre a declaração sai perfeita para o próprio reflexo nos espelhos dos quartos vazios.
Sempre o discurso sai melhor para a platéia invisível que mora nas paredes e cujos aplausos são mudos.

De ausências, digo que precisamos.

Primeiro momento depois que o amigo foi embora e o céu que é ele se inicia em nós
Primeiro dia sem o corredor das escolas,
Primeiro toque que a mão quer e não encontra o que tocar
E é aí que a maquinaria da saudade funciona.

É da ausência do que sabemos que existe
Da ausência que já é em si a promessa da presença...
Que brotam os botões apertados da falta

Pois é apenas sem que desejamos estar com.

E ainda que toque o que realmente é doído
Ainda que seja triste por demais
Devo me perguntar:
Em quantos lugares estão agora minhas ausências?
Em quais lugares eu não estou?

Adrian Lincoln
http://recantodasletras.uol.com.br/poesiasdesaudade/1726820