terça-feira, 20 de setembro de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

Há sempre uma carroça cheia de arrependimentos e o asno sou eu,
Há os momentos que não fiz o que hoje teria feito espalhados pela minha rua,
Há a morte amanhã sepultando os planos passados, presentes, futuros.
Há a volta soturna e noturna do campeão de planos adiados,
Há o coração, tristíssimo relógio de tique taques também tristíssimos,
Há o infinito sentimento de ter tido e perdido algo também infinito.
Há a novidade perfumada e o medo da novidade perfumada,
Há o horror de conhecer,
Há o que não foi, o que não teve, o que poderia ter sido.
Há tanto nada,
Há tanto não,
Há tanto tempo.
Há sempre um carro fúnebre que passa pela minha rua, recolhendo todos os sonhos embrulhados em sacolas de lixo.
Há sempre o que eu gostaria que houvesse,
Mas não há.

(Adrian Clarindo)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Natal de todos


Quando menino, o menino já ia se aprontando, pensando, fazendo os cálculos toda vez que a primavera ia morrendo e o verão vinha para ser a velha novidade. Ah, era a hora da alegria, de quando a gente se esquece dos princípios que nos prendem, de quando os inimigos se sorriem, e a ideologia adolescente pouco importa. Viria o irmão se encontrar com a irmã com quem não trocava palavra, e aí trocariam presentes e abraços e conversas. Viria o tio chato com as velhas piadas de sempre e as camisetas inusáveis que ele sempre dava aos sobrinhos. O pai já teria preparado toda a comida, enquanto a mãe os detalhes da mesa, e estavam os dois mais que belos na hora da chegada dos convidados. Celebrariam todos o dia com o quase conhecido da esquina, não importa, não haveria situação, palavra, silêncio constrangedor, hoje é de todos assim como a vida, presente primeiro.
“Ah, no natal ninguém morre!” calculava sempre o menino com o sorriso no rosto. E no dia, na hora, no momento mesmo, vestiria aquela camiseta de um cinza claro que só muito raro usava para passear quando em lugares demais de chiques, para não ser tão humilhado pelas vitrines, e aí rasgaria com dó o papel de presente, mas com força sem tanto ali ligar. E deixaria todos os presentes enfileirados em cima da cama de lençol cor das nuvens no quarto todo azul, como se quase vivesse no céu. E entre uma brincadeira ou outra dos amigos do pai com ele, receberia umas prezas em dinheiro. Juntaria com o que recebeu dos avós. Ah, guardaria tudo! Talvez para a hora da cantina na escola no ano que vem, quando as férias acabarem. Chegar lá e dizer “quero dois bolinhos”. Ah, o natal, é mesmo tocar o céu.
Viriam uns amiguinhos, aqueles já de casa, e comparariam os presentes uns com outros. Os pais ainda presenteariam os amiguinhos, o menino sabe, ele quem ajudou o pai a escolher os presentes dias antes, quando a primavera falecia sabendo que nasceria de volta. As árvores piscavam para o menino que sentia o calor bom de toda a cidade agasalhada para aquela noite que talvez pudesse, como qualquer outra talvez possa, resultar em ser eterna. “Ah, é natal e todo o amor foi comprado!” gritavam os pensamentos do menino. E habitaria ali na casa toda emoção boa do mundo, pois mesmo muito antes da coisa material dos presentes, celebrariam o que os unia, o que alguns acham ser algo com inicial maiúscula como o Acaso, Acidente ou Tempo, e lá se saberia que era Deus. E ficariam mais contentes mesmo com o presente da presença das pessoas que vieram. Todos lá tentando ao máximo se inundar uns dos outros numa humildade altiva de serem necessários e necessitarem, de serem plateia e ato principal ao mesmo tempo e para sempre.
Quando menino, com a primavera já enterrada, e o verão a andar por tudo que há, o menino viu o dia tão calculado e pensado chegar. E da rua que era a casa própria, debaixo do teto cuja lâmpada é a lua, ele, através de várias janelas, viu que aconteceu tudo do jeito exato que ele esperava.


Publicado no jornal escrito Diário Correio do Paraná. Dezembro de 2011.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Se você não me olha, como eu posso me ver?


A solidão será o jardim de onde floresce tua vontade de ir atrás de algo que você nem sabe o que é. Ela se agigantará em teu quarto e te humilhará encurralando-te em teus pequenos e imbecis princípios. A solidão erguerá a verdade esmagada pelas aparências e te fará um idiota. É ela, é ela que te empurra de teu quarto quando a noite cai e te faz conversar com o desconhecido que te odeia. É ela que te fará paparicar o detestável, que te fará beijar a vagabunda, que te fará abraçar quantos e quantos demônios. 

A solidão vai te agulhar o peito quando você vir por aí as propagandas dos felizes, a fila dos elegantes, o circo dos bonitos. Ela te colocará na festa em que te sentirá um estrangeiro, que sentirá a enorme falta da segurança da tua cama, do programa ruim na TV e da fortaleza que é a companhia de tua família. A solidão te assusta a todo instante com o horror que ela é. E por dias não haverá distração que te distraia, ela virá fulminante ao mesmo tempo em que lenta, te esmagando os sentimentos, se agarrando em teu peito, e terá que sair de casa, ligar para o amigo, encontrar um qualquer para simplesmente conseguir o prazer de ser, pois só existe “eu” se existe “você”. A solidão é aquela que te colocará o “sim” na boca mesmo antes da pergunta, é aquela que te cegará as escolhas, e te fará amar mais o amor do que o amado, mais a ideia de estar apaixonado do que propriamente a pessoa escolhida. Sim, não há ninguém mais romântico do que aquele que não tem com quem ser romântico. Este que namorou a solidão, prima-irmã da tristeza, e conheceu o abismo entre os seres, é quem sabe que o mais alto dos gritos não chegará a ser grito se não houver quem o ouça. Dirão que o próprio gritador pode ouvir, e é aí o lugar em que horror habita. Tira-te o outro, e a solidão te matará, pois é a promessa da presença que mantém o náufrago vivo.
A solidão, que me faz te chamar de amigo, amigo, é aquela que te fará mendigar atenções, atravessar as respostas, e procurar o outro, que o filósofo disse ser nosso inferno, mas esqueceu de dizer que é também, e antes de tudo, o nosso paraíso. Bastássemos nós a nós mesmos, e não mais criaríamos nada, não mais conversaríamos, não mais pintaríamos quadro algum, não mais faríamos nenhum tipo de arte, nem perderíamos tempo fazendo qualquer coisa buscando alguma comunicação como, por exemplo, escrever textos sobre ela própria, a solidão.




Adrian, ilustrado por Melu Nunes, para a revista Ponto E Vírgula.



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

E no fim não haverá fim

Quando descolar-se o sol do céu e choverem as estrelas da noite para longe de tudo que é esperança, estarei ainda na carona de Tua vigília, oh, Alma Santa!

Poderá mesmo a empresa do horror mutilar-me os sonhos e poderá o lado cruel de cada indivíduo sufocar-me de abraços frios, que não me tornarei um servo da estaca da ruindade e da mágoa venenosa que lentamente estraga os filhos da terra.

E ainda que esteja no deserto da miséria, jamais tomarei da poção corrupta que caminha dentro da pátera, pois transborda do suco da discórdia e dos rios odiosos que inundam os espíritos humanos.

Posso mesmo chorar as culpas humanas, mas não as condenarei, ainda que a tristeza aguda me agulhe o peito.

Pois sei que meu ato é Tua vontade e minha palavra é Tua voz, e que toda gota do meu rosto é para o cálice de Teu amor.


(Adrian Lincoln)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

À Maria - A descrição.

“Está caído no alto, contrariando as leis das coisas que caem, e se estende sobre nós seja dia seja noite nos doando de si mesmo belezas infinitas.

Às vezes chora em água com a gente, ou se fecha pálido porque outro entre nós sente-se fechado.

E acompanha todos os seres e todas as coisas e carrega para eles todas as pesadas luzes do universo. É lá ainda que habitam os que nos morreram, as mães mortas, os filhos não nascidos.

E é para lá que olham os vivos quando desesperados ou mesmo esperançosos, para lá que abrem os braços numa tentativa de abraçar e ter para si toda paz que ele promete ser.”

Assim, minha mãe, defini o céu, mas não consegui te mostrar.


Adrian L.

domingo, 25 de outubro de 2009

Quando

Quando eu era criança, Deus era melhor
Alongava a novidade
E nenhuma coisa tinha um fim
Nem o mundo nem nenhuma vida

Deus era mais eterno
E o medo que eu tinha era do escuro
E não do homem

O noticiário era mais tranqüilo
E as tragédias de verdade nunca aconteciam
E não era tão vergonhoso ir até a casa do vizinho ver televisão
Ou emprestar copos de comida

Eu tinha os corações que desejava
Justamente por não desejar coração nenhum
E eu não era tão ridículo
Nem tão feio como me dizem por aí
E nem sempre era o último a ser escolhido
Nas brincadeiras de escolha

As pequenas tristezas aconteciam
E eram porque não se tinha o brinquedo
Não porque não se tinha uma pessoa

Eu não era tão corcunda
E nem me importava se tinha só um par de sapatos
Porque eu não olhava tanto para eles
Como faço hoje quando caminho

Deus amenizava a minha estupidez
Porque colocava graça na bobeira burra
De toda pequena pessoa quando boba

As coisas eram mais iguais
E mesmo o garoto monstro da quinta casa era feliz
Mesmo o amor paraplégico ainda era amor
Mesmo a luz de velas ainda era luz
Mesmo todos eram o coração do mundo
E não só poucos alguns

Quando eu era criança, Deus era melhor
Porque talvez também fosse Ele mais criança.


Adrian L.)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Do mar

Ano passado, eu fui pela primeira vez à praia, e foi quando entendi por que Deus separou o mar do céu:

O mar é grande
A água gigante
O mar nunca pára
Não dorme
Fica lá, acordado
Inundado de movimento
Movimenta mas não vai embora
E é bom por isso
Fica ali
Sempre sendo
Para nós ou para ninguém.


Adrian L.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Exista,

Na nossa cidade não deviam existir tardes tão sozinhas
Nem esquinas cheias de acidentes fatais

Na nossa cidade não devia existir a hora triste
Depois de uma derrota nossa para o mundo

Na nossa cidade não deviam existir amores negados
Nem ruas desertas com casas mudas
Nem aquele tempo que se leva para dormir
Que enche o quarto de dúvidas
E nos dá aquela pequena vontade de morrer

No nosso bairro não devia existir a rua de cima
Que sempre ganha os campeonatos de jogo
Nem o céu com tantas nuvens cortando
A nossa conversa com o sol

No nosso bairro não devia existir a gargalhada alta
Das prostitutas que riem de mim
Nem tanta cor na paisagem
Que a gente vê mas não tem

Na nossa rua não devia existir o vizinho tão melhor
Nem os dias de mais frio do que roupas
Nem mais fome que comida

Na nossa rua não deviam existir os amigos que não moram mais
Nem este festival de mães mortas
Que abaixaram para sempre a cabeça dos filhos

Na nossa rua não devia existir caminhar na calçada
Com esperança de algo que não se sabe o quê

Na nossa rua não devia existir a saudade
Da infância que foi há anos ou ontem
Nem muros tão altos com cachorros lá dentro
Que se a bola cai não tem como pegar

Na nossa rua não devia existir a doença de lembrar
Nem o telefone público
Que transforma o abraço em palavra...

Na nossa rua não deviam existir tantas palavras
Fazendo procissão por tudo que há
Nem a gente brincando de tristeza
Tarde da noite quando já é a hora do soninho
E não de existir.

(Adrian L.)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Das ausências - Adrian Lincoln


Sempre a declaração sai perfeita para o próprio reflexo nos espelhos dos quartos vazios.
Sempre o discurso sai melhor para a platéia invisível que mora nas paredes e cujos aplausos são mudos.

De ausências, digo que precisamos.

Primeiro momento depois que o amigo foi embora e o céu que é ele se inicia em nós
Primeiro dia sem o corredor das escolas,
Primeiro toque que a mão quer e não encontra o que tocar
E é aí que a maquinaria da saudade funciona.

É da ausência do que sabemos que existe
Da ausência que já é em si a promessa da presença...
Que brotam os botões apertados da falta

Pois é apenas sem que desejamos estar com.

E ainda que toque o que realmente é doído
Ainda que seja triste por demais
Devo me perguntar:
Em quantos lugares estão agora minhas ausências?
Em quais lugares eu não estou?

Adrian Lincoln
http://recantodasletras.uol.com.br/poesiasdesaudade/1726820