quinta-feira, 24 de março de 2016

Há sempre uma carroça cheia de arrependimentos e o asno sou eu,
Há os momentos que não fiz o que hoje teria feito espalhados pela minha rua,
Há a morte amanhã sepultando os planos passados, presentes, futuros.
Há a volta soturna e noturna do campeão de planos adiados,
Há o coração, tristíssimo relógio de tique taques também tristíssimos,
Há o infinito sentimento de ter tido e perdido algo também infinito.
Há a novidade perfumada e o medo da novidade perfumada,
Há o horror de conhecer,
Há o que não foi, o que não teve, o que poderia ter sido.
Há tanto nada,
Há tanto não,
Há tanto tempo.
Há sempre um carro fúnebre que passa pela minha rua, recolhendo todos os sonhos embrulhados em sacolas de lixo.
Há sempre o que eu gostaria que houvesse,
Mas não há.

(Adrian Clarindo)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Natal de todos


Quando menino, o menino já ia se aprontando, pensando, fazendo os cálculos toda vez que a primavera ia morrendo e o verão vinha para ser a velha novidade. Ah, era a hora da alegria, de quando a gente se esquece dos princípios que nos prendem, de quando os inimigos se sorriem, e a ideologia adolescente pouco importa. Viria o irmão se encontrar com a irmã com quem não trocava palavra, e aí trocariam presentes e abraços e conversas. Viria o tio chato com as velhas piadas de sempre e as camisetas inusáveis que ele sempre dava aos sobrinhos. O pai já teria preparado toda a comida, enquanto a mãe os detalhes da mesa, e estavam os dois mais que belos na hora da chegada dos convidados. Celebrariam todos o dia com o quase conhecido da esquina, não importa, não haveria situação, palavra, silêncio constrangedor, hoje é de todos assim como a vida, presente primeiro.
“Ah, no natal ninguém morre!” calculava sempre o menino com o sorriso no rosto. E no dia, na hora, no momento mesmo, vestiria aquela camiseta de um cinza claro que só muito raro usava para passear quando em lugares demais de chiques, para não ser tão humilhado pelas vitrines, e aí rasgaria com dó o papel de presente, mas com força sem tanto ali ligar. E deixaria todos os presentes enfileirados em cima da cama de lençol cor das nuvens no quarto todo azul, como se quase vivesse no céu. E entre uma brincadeira ou outra dos amigos do pai com ele, receberia umas prezas em dinheiro. Juntaria com o que recebeu dos avós. Ah, guardaria tudo! Talvez para a hora da cantina na escola no ano que vem, quando as férias acabarem. Chegar lá e dizer “quero dois bolinhos”. Ah, o natal, é mesmo tocar o céu.
Viriam uns amiguinhos, aqueles já de casa, e comparariam os presentes uns com outros. Os pais ainda presenteariam os amiguinhos, o menino sabe, ele quem ajudou o pai a escolher os presentes dias antes, quando a primavera falecia sabendo que nasceria de volta. As árvores piscavam para o menino que sentia o calor bom de toda a cidade agasalhada para aquela noite que talvez pudesse, como qualquer outra talvez possa, resultar em ser eterna. “Ah, é natal e todo o amor foi comprado!” gritavam os pensamentos do menino. E habitaria ali na casa toda emoção boa do mundo, pois mesmo muito antes da coisa material dos presentes, celebrariam o que os unia, o que alguns acham ser algo com inicial maiúscula como o Acaso, Acidente ou Tempo, e lá se saberia que era Deus. E ficariam mais contentes mesmo com o presente da presença das pessoas que vieram. Todos lá tentando ao máximo se inundar uns dos outros numa humildade altiva de serem necessários e necessitarem, de serem plateia e ato principal ao mesmo tempo e para sempre.
Quando menino, com a primavera já enterrada, e o verão a andar por tudo que há, o menino viu o dia tão calculado e pensado chegar. E da rua que era a casa própria, debaixo do teto cuja lâmpada é a lua, ele, através de várias janelas, viu que aconteceu tudo do jeito exato que ele esperava.


Publicado no jornal escrito Diário Correio do Paraná. Dezembro de 2011.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Se você não me olha, como eu posso me ver?


A solidão será o jardim de onde floresce tua vontade de ir atrás de algo que você nem sabe o que é. Ela se agigantará em teu quarto e te humilhará encurralando-te em teus pequenos e imbecis princípios. A solidão erguerá a verdade esmagada pelas aparências e te fará um idiota. É ela, é ela que te empurra de teu quarto quando a noite cai e te faz conversar com o desconhecido que te odeia. É ela que te fará paparicar o detestável, que te fará beijar a vagabunda, que te fará abraçar quantos e quantos demônios. 

A solidão vai te agulhar o peito quando você vir por aí as propagandas dos felizes, a fila dos elegantes, o circo dos bonitos. Ela te colocará na festa em que te sentirá um estrangeiro, que sentirá a enorme falta da segurança da tua cama, do programa ruim na TV e da fortaleza que é a companhia de tua família. A solidão te assusta a todo instante com o horror que ela é. E por dias não haverá distração que te distraia, ela virá fulminante ao mesmo tempo em que lenta, te esmagando os sentimentos, se agarrando em teu peito, e terá que sair de casa, ligar para o amigo, encontrar um qualquer para simplesmente conseguir o prazer de ser, pois só existe “eu” se existe “você”. A solidão é aquela que te colocará o “sim” na boca mesmo antes da pergunta, é aquela que te cegará as escolhas, e te fará amar mais o amor do que o amado, mais a ideia de estar apaixonado do que propriamente a pessoa escolhida. Sim, não há ninguém mais romântico do que aquele que não tem com quem ser romântico. Este que namorou a solidão, prima-irmã da tristeza, e conheceu o abismo entre os seres, é quem sabe que o mais alto dos gritos não chegará a ser grito se não houver quem o ouça. Dirão que o próprio gritador pode ouvir, e é aí o lugar em que horror habita. Tira-te o outro, e a solidão te matará, pois é a promessa da presença que mantém o náufrago vivo.
A solidão, que me faz te chamar de amigo, amigo, é aquela que te fará mendigar atenções, atravessar as respostas, e procurar o outro, que o filósofo disse ser nosso inferno, mas esqueceu de dizer que é também, e antes de tudo, o nosso paraíso. Bastássemos nós a nós mesmos, e não mais criaríamos nada, não mais conversaríamos, não mais pintaríamos quadro algum, não mais faríamos nenhum tipo de arte, nem perderíamos tempo fazendo qualquer coisa buscando alguma comunicação como, por exemplo, escrever textos sobre ela própria, a solidão.




Adrian, ilustrado por Melu Nunes, para a revista Ponto E Vírgula.



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

E no fim não haverá fim

Quando descolar-se o sol do céu e choverem as estrelas da noite para longe de tudo que é esperança, estarei ainda na carona de Tua vigília, oh, Alma Santa!

Poderá mesmo a empresa do horror mutilar-me os sonhos e poderá o lado cruel de cada indivíduo sufocar-me de abraços frios, que não me tornarei um servo da estaca da ruindade e da mágoa venenosa que lentamente estraga os filhos da terra.

E ainda que esteja no deserto da miséria, jamais tomarei da poção corrupta que caminha dentro da pátera, pois transborda do suco da discórdia e dos rios odiosos que inundam os espíritos humanos.

Posso mesmo chorar as culpas humanas, mas não as condenarei, ainda que a tristeza aguda me agulhe o peito.

Pois sei que meu ato é Tua vontade e minha palavra é Tua voz, e que toda gota do meu rosto é para o cálice de Teu amor.


(Adrian Lincoln)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

À Maria - A descrição.

“Está caído no alto, contrariando as leis das coisas que caem, e se estende sobre nós seja dia seja noite nos doando de si mesmo belezas infinitas.

Às vezes chora em água com a gente, ou se fecha pálido porque outro entre nós sente-se fechado.

E acompanha todos os seres e todas as coisas e carrega para eles todas as pesadas luzes do universo. É lá ainda que habitam os que nos morreram, as mães mortas, os filhos não nascidos.

E é para lá que olham os vivos quando desesperados ou mesmo esperançosos, para lá que abrem os braços numa tentativa de abraçar e ter para si toda paz que ele promete ser.”

Assim, minha mãe, defini o céu, mas não consegui te mostrar.


Adrian L.

domingo, 25 de outubro de 2009

Quando

Quando eu era criança, Deus era melhor
Alongava a novidade
E nenhuma coisa tinha um fim
Nem o mundo nem nenhuma vida

Deus era mais eterno
E o medo que eu tinha era do escuro
E não do homem

O noticiário era mais tranqüilo
E as tragédias de verdade nunca aconteciam
E não era tão vergonhoso ir até a casa do vizinho ver televisão
Ou emprestar copos de comida

Eu tinha os corações que desejava
Justamente por não desejar coração nenhum
E eu não era tão ridículo
Nem tão feio como me dizem por aí
E nem sempre era o último a ser escolhido
Nas brincadeiras de escolha

As pequenas tristezas aconteciam
E eram porque não se tinha o brinquedo
Não porque não se tinha uma pessoa

Eu não era tão corcunda
E nem me importava se tinha só um par de sapatos
Porque eu não olhava tanto para eles
Como faço hoje quando caminho

Deus amenizava a minha estupidez
Porque colocava graça na bobeira burra
De toda pequena pessoa quando boba

As coisas eram mais iguais
E mesmo o garoto monstro da quinta casa era feliz
Mesmo o amor paraplégico ainda era amor
Mesmo a luz de velas ainda era luz
Mesmo todos eram o coração do mundo
E não só poucos alguns

Quando eu era criança, Deus era melhor
Porque talvez também fosse Ele mais criança.


Adrian L.)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Do mar

Ano passado, eu fui pela primeira vez à praia, e foi quando entendi por que Deus separou o mar do céu:

O mar é grande
A água gigante
O mar nunca pára
Não dorme
Fica lá, acordado
Inundado de movimento
Movimenta mas não vai embora
E é bom por isso
Fica ali
Sempre sendo
Para nós ou para ninguém.


Adrian L.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Exista,

Na nossa cidade não deviam existir tardes tão sozinhas
Nem esquinas cheias de acidentes fatais

Na nossa cidade não devia existir a hora triste
Depois de uma derrota nossa para o mundo

Na nossa cidade não deviam existir amores negados
Nem ruas desertas com casas mudas
Nem aquele tempo que se leva para dormir
Que enche o quarto de dúvidas
E nos dá aquela pequena vontade de morrer

No nosso bairro não devia existir a rua de cima
Que sempre ganha os campeonatos de jogo
Nem o céu com tantas nuvens cortando
A nossa conversa com o sol

No nosso bairro não devia existir a gargalhada alta
Das prostitutas que riem de mim
Nem tanta cor na paisagem
Que a gente vê mas não tem

Na nossa rua não devia existir o vizinho tão melhor
Nem os dias de mais frio do que roupas
Nem mais fome que comida

Na nossa rua não deviam existir os amigos que não moram mais
Nem este festival de mães mortas
Que abaixaram para sempre a cabeça dos filhos

Na nossa rua não devia existir caminhar na calçada
Com esperança de algo que não se sabe o quê

Na nossa rua não devia existir a saudade
Da infância que foi há anos ou ontem
Nem muros tão altos com cachorros lá dentro
Que se a bola cai não tem como pegar

Na nossa rua não devia existir a doença de lembrar
Nem o telefone público
Que transforma o abraço em palavra...

Na nossa rua não deviam existir tantas palavras
Fazendo procissão por tudo que há
Nem a gente brincando de tristeza
Tarde da noite quando já é a hora do soninho
E não de existir.

(Adrian L.)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Das ausências - Adrian Lincoln


Sempre a declaração sai perfeita para o próprio reflexo nos espelhos dos quartos vazios.
Sempre o discurso sai melhor para a platéia invisível que mora nas paredes e cujos aplausos são mudos.

De ausências, digo que precisamos.

Primeiro momento depois que o amigo foi embora e o céu que é ele se inicia em nós
Primeiro dia sem o corredor das escolas,
Primeiro toque que a mão quer e não encontra o que tocar
E é aí que a maquinaria da saudade funciona.

É da ausência do que sabemos que existe
Da ausência que já é em si a promessa da presença...
Que brotam os botões apertados da falta

Pois é apenas sem que desejamos estar com.

E ainda que toque o que realmente é doído
Ainda que seja triste por demais
Devo me perguntar:
Em quantos lugares estão agora minhas ausências?
Em quais lugares eu não estou?

Adrian Lincoln
http://recantodasletras.uol.com.br/poesiasdesaudade/1726820

sábado, 18 de julho de 2009

Adrian Lincoln - (O hospício dos certos)

Andar ando com os acostumados à derrota,
Com os habitantes invisíveis da sarjeta dos ignorados.

Sou amigo dos corcundas perdedores, dos desajustados não notados,
Horríveis desconhecidos.

Caminho com os homens-aberrações que saem se escondendo pelas esquinas quadradas,
Humilhados pelas alegrias casuais, tão inalcançáveis.

Faço parte da equipe dos humanos feios, dos azarados tímidos, dos covardes chorosos nestes dias chorosos.

Andar ando com os ausentes,
Moradores sozinhos da casa da angústia, não percebidos, não presentes, ruins de se olharem.
Camuflados entre as paredes de cor oca, tão fracassados em ser.

Sou dos ridículos pobres, piada das prostitutas, piada dos jogadores, piadas.
Vencidos por qualquer pequeno estalo, rejeitados de amores, traídos em centenas, mal arrumados, mal acabados,
Deselegantes palhaços sem harmonia.

Esquecidos facilmente, não lembrados pelas emoções, não convidados às festas cretinas dos prazeres escuros em que o nascimento da manhã seguinte não importa.

Aqueles que as histórias não carregam, que as saudades não apontam,
E o hálito dos acasos não sussurra paixão alguma.

Que a voz é um lamento e a canção uma despedida.
Que a miséria é normal.

Sou transformador de suas quase palavras, e sou um destes.
Exército fraquíssimo de soldados medrosos, a vergonha das raças.

Dos que vivem na margem da página onde nada consegue se escrever, se mostrar, se falar,
Eu sou o grito.
Um maldito de um grito escrito.

Adrian Lincoln (O hospício dos certos).

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Final

Final

Versa dentro de mim a conversa que só se ouve sem ouvidos
Leciona o ruim dos dias, e destaca as consoantes tristes.
E por quê?
Depois que os milênios não estiverem mais aqui e o espírito passar por todos os seus funerais
Ainda no cemitério do céu serei
Professor da angústia e exemplo da derrota?

Confiro a ti, outro qualquer que por ser outro faz de mim eu,
Como fosse o poeta absoluto que me criou,
A invenção do meu crime.

Sou o culpado aí de serem as fraquezas quase normais
E do ridículo do choro no final das histórias
Da aberração dos momentos risonhos
E da humilhação pálida dos pedidos,
(E quantas vezes já não me humilhei pedindo
Pelo que for. Beijo ou água ou algum qualquer sim do mundo.
Qualquer sim daqueles que concordam com a gente).

Escreve no caderninho da minha alma a voz de não sei quem.
E todo mundo sabe,
Choro palavras
Que escorrem pelo meu rosto
E mancham o papel
Numa ordem feia de se ver.

E é que de súbito me aparecem
Todos os humanos que já nasceram e que nascerão em toda a história da terra
E mais ainda os não bem formados, natimortos, destruídos pela guerra das células
E me olham e me apontam.
Em alguma hora que foge do meu relógio.

E me ocupam em saber de todas as suas curiosidades e de todos os seus dias e noites
E os conheço por completo um a um.

E ao me saberem... todos eles se amarguram.
De se aperceberem da verdade dos sozinhos
De se aperceberem da falta de vitórias para contar.

Os abortados têm de mim pena
Reis insistem-me como bobo da corte,
As donzelas do além moderno matriculam-se em outras paixões.

E se vão embora todos e sinto de uma só vez o remorso de todas as despedidas possíveis.
Agora é de todos os seres de todos os tempos que tenho saudade.

Saudade de tantas outras saudades

O teatro nervoso de toda a realidade vai perdendo as forças
Ao passo que em mim tudo emudece
E quem eternamente arremessa meu coração para que pulse parece já não mais estar lá.

Adrian Lincoln

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Filhos da Puta

Filhos da Puta
Sim, certas coisas são lógicas, Deus colocou na forma das coisas seus nomes, uma pedra só poderia ser pedra, uma águia só poderia ter este nome, águia, o Moisés aqui do lado da minha casa tem cara de Moisés mesmo. O que eu realmente não sei o porquê é o fato de Deus privilegiar certos filhos da puta, estes que só de a gente olhar já se sabe: “Sim, são filhos da puta”.
Filhos da puta não estão apenas marcando impedimentos errados, mas sim se espalham por toda parte; aqui na rua tem uns dez que eu consegui contar rápido. Opa, mais um, onze. E apesar da alcunha, eles sempre estão de algum modo em um posto melhor que você. O típico filho da puta é um filho terrível, só causa problema, porém ganha um carro do pai bem antes que você consegue sonhar em dirigir. São eles traidores, bobos, infantis, mas são geralmente os escolhidos pelas garotas, às quais chamávamos de legais e bonitas, isso até sabermos de tal escolha, depois, são elas também parte do grande time. E são muito felizes, isso, filhos da puta são felizes, invejosamente felizes.
Os dentes dos filhos da puta não doem, não, nunca. Eles chegam atrasados e o pessoal acha engraçado e lhes dá um aumento. Filhos da puta leem os livros pela metade, sabem mais ou menos as ideias, mas são eles que tiram 10 nos testes, são eles os preferidos dos professores, são eles que conseguirão a vaga para qualquer coisa a que você concorra. Filhos da puta em concurso de frases farão algo como “Tal companhia apavora!” e tirarão o primeiro lugar, deixando a sua frase tão bem pensada, elaborada, e com uma ideia bem sacada fora da lista dos prêmios. Deus deve mesmo gostar dos filhos da puta.
E é assim tanta injustiça para com a gente, os filhos da mãe mesmo, que nos perguntamos se vale a pena, se vale manter-se como um carpinteiro do universo, tentando remendar as coisas, não deixar as pessoas em má situação, não ofender, não brigar, não tirar proveito, ser justo, doar sangue, a vida, o coração e o telefone. É, de que vale calar-se ao perceber uma pessoa contando algo que você já sabe apenas para não quebrar o entusiasmo da novidade? Um filho da puta não ligaria, quebraria, humilharia e talvez nem perceberia que assim fazia. Filhos da puta são egoístas por natureza, já nascem assim.
E de tanto perderem, aqueles que não nasceram filhos da puta se cansam, cansam de nunca ganharem o que for que disputem, cansam de dar tudo o que podem e nunca ser o suficiente ou ser mais do que o suficiente. Cansam das desculpas das filosofias esperançosas, cansam de sempre se reconhecerem nos personagens sofridos dos livros, de chorarem no final dos filmes ou de se sentirem tão sentimentais e fracos ao som das músicas mais lentas. E cansados, eles se aposentam do cargo de compreensivos e tentam aos poucos se tornarem também filhos da puta.
E assim os filhos da puta aumentam, sem noção, desesperadamente. Acontece aí como uma corrida para ser filho da puta e viver as coisas em vez de só observá-las. Ser feliz através da distração que só um filho da puta conseguiria ter, não se importar com nada, machucar os outros, não respeitar ninguém e, o melhor, perceber ainda que existem aqueles que são como se era e que é a sua felicidade agora que os irrita profundamente.
Sim, sendo filho da puta ganharemos as vagas, os aumentos, os concursos de frase e seremos nós, então, os queridinhos do chefe, os preferidos do papai, e, finalmente, os escolhidos pelas garotas filhas da puta.
Talvez, devido ao nosso passado não tão glorioso, não sejamos assim facilmente reconhecidos como filhos da puta, mas o importante é que agora somos alguma coisa, e temos o aval de Deus.
Logo, cabe a nós, sortudos, casarmos e termos mais e mais filhos, e, seguindo a cartilha dos pais, darmos aos nossos filhos o que nós não pudemos ter: o direito de já nascerem filhos da puta.


Adrian Lincoln

sábado, 13 de setembro de 2008

O Céu na Terra

O Céu na Terra
O que se sabia era que Vô Zé havia feito tudo na vida de mais extraordinário. Tudo de mais legal. Criado as palavras. Trabalhado com Deus, caçoado do Diabo. Inventado as cores e visitado a Disneylândia antes de nascer.
Vô Zé não falava, não ouvia, não se mexia há muito tempo. De tudo a mãe ajudava. Eu só sabia das histórias que, aliás, nem sei como sabia. Eu tinha dois anos e meio e o pouco tempo de vida me chegava legal com a novidade constante das coisas que se apresentavam a todo o momento. Nesse dia-a-dia de descobertas, eu e as outras crianças da minha idade enquanto brincávamos na areia ou na gangorra do parquinho, aproveitávamos e conversávamos muito sobre a existência ou não de algum elo entre as coisas que parecem ser vivas. Daninho, o que conseguia ir mais alto na balança, achava que as pedras viviam também e já era outra discussão. Ito, o melhor na construção de castelos de areia, achava que não. E só. “Não existe e não há abraço que sufoque a solidão das idéias próprias” era a máxima do futuro arquiteto. Eu dizia “para o Vó Zé, já que a gente existe, e a gente é mais de um, também existe a distância e para ele tudo é distante de tudo, mas às vezes a distância se distrai e é quando a gente consegue estar realmente perto um do outro”. “Preciso encontrar alguém que me distraia dessa forma” disse Daninho. “Mas será mesmo?”, Ito.
Vô Zé lá de vez em quando olhava para nós, eu era o que mais era visto, pois morava com ele, Daninho dizia que também, que o Vô Zé o seguiu com o olhar por uns 10 segundos. Ito nunca tinha sido acompanhado pelos olhos do velho. Vô Zé era velho, tinha 100 anos exatos, e isso fazia tempo já que eu lembre. Não tinha aniversário para ele, Vô Zé tinha nascido num dia em que ele tirou do calendário depois de uns tempos, não se sabe bem o porquê. Vô Zé agora era parado como o silêncio e parecia que para ele todos os dias eram o mesmo dia. Não sei se era o cansaço de estar sempre inventando as sensações e assim estar cansado de senti-las, ou se era uma falta de retorno de boas emoções de tudo aquilo que não era ele para com ele, seja vivo, morto, ou abstrato. Sei que éramos loucos para ver o Vô Zé comendo, pois ninguém de nós tinha visto ainda nenhum movimento exceto o dos olhos do Vô Zé, e comer todo mundo come e daí se mexe. Uma vez até, na hora da papinha, Daninho e Ito não aceitaram o aviãozinho carregado de verduras picadas,
e apontaram para o Vô Zé. Mas não aconteceu nada. Por mais que os dois chorassem bastante, nenhuma mãe entendeu o que significavam lágrimas, pequenas mãos apontando e bocas fechadas.
Ito declamou um poema pessimista sobre a imprecisão da linguagem dos símbolos infantis que eu apenas me recordo do título: “Língua Mãe”. E Daninho fez comentários sobre, “Antes de nascer, Vô Zé brincou no carrossel e um cavalinho o atropelou. Você, Ito, antes de nascer, deve ter criado o inferno, o que se for verdade, faz pouco tempo que essa opção existe, talvez todo imperador tirano tenha ido para o céu”. Eu queria falar, entrar na discussão, mas eu era o único que ainda mamava e fazia isso naquela hora, e era muito bom mamar. Tinha sido do Vô Zé a idéia de que a mulher teria alimento para seu filho, Vô Zé gostava das mulheres, foi ele quem brigou com Deus e deu para elas mais uma perna, antes disso todas as mulheres usavam muletas. E com a boca branca, eu tive uma idéia.
Era sabido, sabe-se se lá como, que Vô Zé tinha trabalhado num cemitério de flores, por muito tempo, um tempo bom, talvez o melhor tempo do Vô Zé. Daninho achava genial, em particular, essa idéia de Vô Zé, “Fico pensando no primeiro humano a admirar uma flor e com o tempo ver sua beleza se despedaçando até que apenas sobrasse uma semente, e, por respeito e pesar, atuar como um coveiro, enterrando esse corpo último da flor e aí se espantar ao perceber que da morte se germinou nova e eternamente o grão da vida”. Vô Zé tinha sido isso, um coveiro de flores. Vô Zé dizia que as pessoas se soubessem da verdade inteira seriam todas jardineiras. Eu, nunca entendi bem isso. Ito dizia que era “algo relacionado com a máquina de fazer mentira que todos alimentam quando fingem que seus corações falam”. Daninho achava que era sobre “não precisar mais buscar os mistérios plantados em nosso amor pelas coisas erradas”. Levar o Vô Zé até o seu antigo cemitério, essa era minha idéia.
“Quem sabe lá ele não se sinta mais feliz?” falei. Daninho, “Ou ao menos diferente?”. Ito ficou em pé, caiu, ficou em pé, tirou a chupeta da boca e declarou “Deus meu, mas que é que ocorre que todo mundo quer ser feliz, virou regra? Obrigação? Fim maquiavélico justificando os meios? Ah, se o fará feliz, pode assassinar o sonho alheio. Ah, se te faz bem, corra atrás do que você quer, se você é feliz sendo assim, seja. Felicidades, feliz ano novo, feliz páscoa, feliz natal, que feliz o quê? Irracional e egoísta essa busca incessante e infernal pela felicidade, uma maratona vazia cheia de perdedores com o troféu opaco da felicidade falsa”. Eu e Daninho concordamos, “É, é verdade” dissemos juntos. Um minuto de silêncio, e ressaltei a idéia de Daninho, “Ou diferente! Vô Zé pensa assim, ele sempre falava que a pior rotina é a rotina dos sentimentos, e que a dança surda dos dias pode ser sempre a mesma, mas não devemos deixar que isso contamine o ritmo das nossas emoções”. Todos consentimos enquanto nos encantávamos com um homem que passava montando um cavalo, eu e Ito achamos que aquilo era um só ser, Daninho que explicou que se tratava de um animal chamado cavalo e um ser humano em cima dele, “Meu tio tem um desses, mas é maior”.
Numa madrugada saímos, nos encontramos no quintal, repassamos o plano ainda não passado e fomos a executá-lo. Cordas de brinquedos velhos amarradas à cadeira de rodas, com muito esforço conseguimos um embalo, passamos a rampa que tinha sido feita pelo próprio Vô Zé, anos antes numa tarde em que ele escolheu que não mais ia se mexer quando tivesse 100 anos, e caímos no mundo. “Vamos caçar flores!” gritou Ito. Eu e Daninho estranhamos porém também gritamos “É!”. Chegamos à rua e a rua era realmente grande. Daninho, “Será que tem fim?”. Eu, “Deve ter um começo.” Ito, “Não, não tem”. Era uma super descida, ficamos com muito medo, nos dependuramos na cadeira, e fizemos o pleonasmo. Lá embaixo, recuperamos o fôlego e olhamos as estrelas e falei “Vô Zé tem uma de estimação, é o sol, por isso ele fica rodeando a terra, vem todo dia só para ver o Vô Zé”, “Queria ter uma e dedicar à pessoa que no futuro vai me distrair”, disse Daninho. Ito notou que Vô Zé tinha acordado.
“Olha ele olhando para lá”. Seguimos o olhar e adentramos a floresta, fomos cansando, e temendo todo e qualquer barulho da noite. Mas nos acostumamos depois, “Até parece música” disse Daninho. Vô Zé gostava de música, a gente sabia que ele tinha tido um conjunto musical quando antes e que seus colegas músicos parece que ainda eram vivos, deveriam também ter 100 anos cada. Foi nesse conjunto que Vô Zé pensou em inventar o grito das guitarras e das pessoas e depois os barulhos do mundo. E na floresta era como uma sinfonia executada pelas árvores cheias de ruídos que eram realmente enormes, pilares do templo da floresta e a luz da lua era um holofote que entrecortava tudo e iluminava o rosto do Vô Zé, parecia até que o verde tinha se alegrado ao ver o velho homem de cadeira de rodas.
Caminhamos muito, e decidimos dormir um pouco, era ruim sem alguém para nos ninar, porém o fizemos, contei a história de que Vô Zé tinha uma flor aérea, uma não, várias. Ficamos cheios de curiosidade sobre e então adormecemos e sonhamos os sonhos de criança. Quando o sol acordou, a gente também. Caminhamos mais, nós com nossos pequenos passos e Vô Zé com seus pés de roda. E era um super gigante trecho mesmo, encontramos um outro bebê que nos ajudou a atravessar um pequeno córrego, Mourinho que tinha fugido de casa, nós tínhamos ouvido mesmo falar sobre uma criança com cabelo enrolado que havia desaparecido. Contei-lhe sobre nossa viagem e que Vô Zé também tinha sido como nós, que à idade tenra já tinha o pensamento viajado e sabia falar a língua das imagens que Deus monta e ninguém se apercebe mesmo que olhem com admiração por fins de tarde inteiros. Mourinho se entusiasmou muito e prometeu uma visita. Indo embora, Daninho perguntou “Mas por que de fugir?”, “Eu vou voltar” Mourinho respondeu. E então, fomos, caminhamos mais muitas horas para o jardim e uma hora distraída, Daninho percebeu que já estávamos nele, “É aqui!”. E irradiamos todos de alegria. Havia tantas flores, tantas mais tantas que eram todas. Só Vô Zé sabia a quantidade exata porque ele tinha descoberto o fim dos números. E no meio de todas aquelas infinitas cores e cheiros, eu me perguntei sobre as flores aéreas e Daninho disse “Mas, é claro!”. E Ito disse “Mas, é lógico!”. E eu não disse nada. E Ito e Daninho apontando para o meio do jardim falaram juntos: “Lá estão as flores aéreas!”. E ali eu entendi. “Sim, flores aéreas” disse e olhei para as várias flores que habitavam o céu. E Daninho disse o que todos nós pensávamos: “São borboletas, borboletas são flores que voam”. Olhamos para o Vô Zé que derramava uma lágrima do olho direito. E era uma mistura naquele momento, como se o silêncio visitasse a casa da voz e a voz visitasse a casa das cores e as cores saíssem à rua das amarguras e das alegrias e dessas se retirassem pedaços grandes de todos os sentimentos possíveis, uma abstração que a gente sentia física.
Eu e Daninho chorávamos muito, mas não nos jogamos para trás ou rolamos no chão como sempre fazíamos, era uma confusão de sentimentos, era doído de verdade, um ruim no coração ao mesmo tempo em que uma segurança, uma segurança parecida com a vaga lembrança que tínhamos da época em que vivíamos no ventre e ainda não sabíamos o que haveria depois dele.
Ito, segurando o choro e olhando para o Vô Zé, disse “Chora o homem sobre a sua própria obra, que mais poderia? Pois, que são suas obras senão suas tentativas de distrair a distância eterna estabelecida desde que simplesmente nascemos cada um? E mesmo com a obra magnífica, o homem ainda só tem motivos ao pranto porque só admiram-na e não a ele. A obra sente falta de seu pai, mas não sentem nada por ele aqueles que louvam apenas a criação e não o criador. Ah, homem, anda a perder para os nomes, separam-te mesmo das tuas palavras, dizem e mostram que você não as é... E é como alguém que ama a luz do sol e não o próprio sol. E um dia, por assim tão sozinho, o sol vai embora ou mesmo pára de falar a voz da luz”.
Vô Zé morreu nesse dia, aos 100 anos de idade. As flores rasteiras o enterraram enquanto o céu começava a chorar em chuva. Nós voltamos para casa e crescemos.



Adrian Lincoln

Link no Google docs aqui.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Cheio

CHEIO

Estava farto da blasfêmia contra Deus e farto dos que jogam a favor Dele e dos mornos que um dia, graças a Deus, serão vomitados. Estava farto da música triste, desses hinos da angústia que nos lembram de toda dor acumulada, desses perdedores pessimistas que as escutam todo dia e toda hora sentem-se aspirados a fazer algo novo transformando-se em otimistas odiáveis. Farto dos reunidos alegres nessas esquinas sujas ou nessas casas acesas que celebram e celebram sem jeito, apenas para sentirem-se numa patética emoção da confusão. Farto das mães falecendo, dos acidentes de carro, desses episódios fúnebres que guiam tudo. Farto do tempo, dessa pancada a cada segundo, da dança parada dos dias. Farto da velhice... Dessa velhice que tenta ser moderna e compreender os dilemas e problemas atuais, querendo ser vida e não morte. Farto! Farto da juventude no seu sonho ardente de ser erudita, de amar o velho. Farto dos jovens enterrando-se um a um numa terra infértil de ignorância. Farto do amor injusto das mulheres, estes seres de cabelos compridos e mente curta e coração burro. Farto dessas putas velhas que se riem nos bares. Farto dos homens que são de todos, os animais mais falsos, farto! Farto do Homem. Farto dos prodígios que nos afrontam sem saber coisa alguma sobre nada, dos rebeldes que rasgam suas roupas para nos chocar porque não conseguem fazer o mesmo com as palavras. Farto das palavras! Mentirosas e metidas à besta. Farto dos ecléticos, dos sectários, dos negros, dos brancos, dos coloridos. Farto dos carnívoros que comem a si mesmo todo dia, dos vegetarianos babacas que se auto promovem regurgitando sempre as mesmas idéias verdes. Farto dos adjetivos. Farto do ser e do não-ser. Farto. Estava farto de si mesmo. Farto da mesa farta. Farto da vida, das vidas bobas, do bêbado, do sóbrio, do poeta louco, do gênio. Farto! Farto! Estava farto!

E eu acho mesmo era... Porque fartava alguém.
Adrian Lincoln

Texto publicado no Jornal Da Manhã de Ponta Grossa, Paraná; Clique aqui para ir à matéria.